Há pessoas que escrevem sobre tecnologia.
E há pessoas que nos ensinam a pensar sobre tecnologia.
Para mim, John C. Dvorak pertence claramente ao segundo grupo.

5:de Abril de 1946 – 20 de Julho de 2026
(80 anos)
Li os seus artigos durante cerca de quarenta anos. Durante esse tempo vi nascer e desaparecer empresas, sistemas operativos, linguagens de programação, fabricantes de computadores, modas e tendências que pareciam imparáveis. Em todas essas mudanças, houve uma constante: a voz clara de John Dvorak.
Algumas das suas opiniões eram deliberadamente provocadoras. Mas nunca deixei de o ler, porque havia uma diferença importante entre Dvorak e muitos outros comentadores: escrevia aquilo em que realmente acreditava.
Inteligência sem filtros
Num mundo onde tantos jornalistas tecnológicos repetem comunicados de imprensa ou seguem a opinião dominante, Dvorak sempre fez exatamente o contrário – questionava, provocava e criticava.
E, acima de tudo, obrigava os leitores a pensar.
Mesmo quando acabava por estar errado, a sua argumentação era suficientemente sólida para merecer atenção.
Hoje, essa independência parece mais rara do que nunca.
Muito antes dos “influencers”
Vivemos numa época em que grande parte da informação tecnológica chega através de vídeos patrocinados, análises apressadas e títulos sensacionalistas.
John Dvorak pertence a outra geração.
Uma geração em que a credibilidade se conquistava ao longo de décadas e não através do número de seguidores nas redes sociais.
Não precisava de agradar a fabricantes nem de alinhar com a opinião dominante.
Escrevia porque tinha algo para dizer.
A irreverência como marca
Uma das características que sempre admirei foi a sua irreverência.
Nunca teve receio de desafiar consensos.
Muitas vezes foi criticado por isso.
E muitas vezes o tempo acabou por lhe dar razão.
Mas mesmo quando não dava, havia algo de refrescante em ler alguém que recusava pensar como toda a gente.
Uma influência silenciosa
É curioso como algumas pessoas acabam por influenciar a nossa forma de olhar para a tecnologia sem sequer as conhecermos pessoalmente.
Ao longo destes quarenta anos, apercebi-me de que muitas vezes fazia a mim próprio uma pergunta simples:
“Será que isto é realmente uma boa ideia, ou estamos apenas a seguir mais uma moda?”
A minha forma crítica de olhar para as tecnologias deve muito às centenas de artigos de John Dvorak que fui lendo ao longo da vida.
Obrigado, John
Vivemos numa época em que a informação nunca foi tão abundante.
Mas isso não significa que existam mais pessoas verdadeiramente independentes.
John C. Dvorak pertence a uma geração de jornalistas que ajudou a construir a imprensa tecnológica moderna, sempre com inteligência, sentido crítico e uma irreverência que nunca perdeu.
Depois de quarenta anos a acompanhar os seus textos, sinto apenas vontade de dizer uma coisa:
Obrigado.
Obrigado por nunca ter escrito para agradar.
Obrigado por nunca ter deixado de fazer perguntas incómodas.
E obrigado por me ter ensinado que, no mundo da tecnologia, vale sempre a pena pensar pela própria cabeça.
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